\WAITSCAPE

SOBRE WAITSCAPE

Waitscape ("paisagens da espera") é um projeto de videoperformance in progress também fundamentado nos princípios da paisagem sonora (soundscape), isto é, uma configuração sonora composta por sons, ruídos e silêncios. Procura evidenciar micro-narrativas existentes nas "janelas de espera" que compõem o cotidiano urbano, no caso, os momentos de ócio que se acumulam na espera pelo ônibus, metro ou trem. Dialoga com as possibilidades de uso deste tempo ocioso, além de vislumbrar expansões perceptivas do eu-flauner nestas situações de espera pelo transporte público. 

ORIGENS DO PROJETO

O projeto Waitscape surgiu a partir de um exercício proposto em maio de 2014 no MOLA – Grupo de Estudos de Arte e Tecnologia, coordenado pelos artistas Lucas Bambozzi e Fernando Velazquez. A proposta sugerida era a de que realizássemos um trabalho que referenciasse a ideia de paisagem e, movida por esta incumbência, lancei novos olhares e escutas para a realidade/paisagens presente no meu cotidiano 

Em meio a uma das estações de trem da linha esmeralda (autódromo), em São Paulo-SP, que fazia parte de meu trajeto de 1h30 do trabalho até minha casa, lancei-me a uma atitude investigativa com a câmera fotográfica de meu aparelho celular, procurando extrair alguma paisagem com aquele exercício. Fotografei sombras, grades, e diante daquela espera pelo trem, comecei a filmar meus pés e todo os movimentos produzidos por eles naquela espera entediante.

 

Percebi que ali havia não apenas um corpo ocioso, como também, um conjunto de ruídos sonoros que atravessavam aquele corpo. Tais vibrações sonoras compunham um ritmo e orquestravam as sensações-emoções internas na medida em que o "momento final" - a chegada do trem-metrô-ônibus - ocorria.

Perguntas também passariam a emergir:  "O que as pessoas fazem quando esperam?";  "Quanto tempo de espera "perdemos" em nosso cotidiano nas cidades que exigem que nos desloquemos por "; "Quais são os corpos que vivenciam esta espera?". 

Dali então, passei a registrar vários outros momentos de espera pelo ônibus, metro ou trem usando um mesmo mesmo enquadramento, de maneira ampliar a  atenção para as pequenas diferenças sonoras aleatórias eclodidas naquele instante.  Independente do endereço e de nossa língua, os sons parecem revelar pistas que não nos levam a lugar nenhum. A espera parece ser um limbo.

REFLEXÕES SOBRE O TEMPO

Observando o período de industrialização ocorrido a partir do século XVIII, bem como o processo de urbanização decorrente destas transformações, bem como a massiva presença das tecnologias na sociedade, o ser humano tem se confrontado com um cenário em que sua percepção vem sendo desafiada. Nos grandes conglomerados urbanos, os fenômenos imagéticos, por exemplo, se multiplicaram em um ritmo acelerado e isso me permite afirmar que nunca houvera tantos signos em circulação como na atualidade.

Por outro lado, refletindo sobre estas questões, também noto que nem todos estes estímulos presentes na realidade conseguem ser captados pela população, afinal,  o excesso de informação é um dos fatores impeditivos para a vivência de experiências, de atenção. Noto também uma fadiga nesta vida na metrópole, que costuma estar mais direcionada para o mundo do trabalho, por exemplo, do que para a experiência contemplativa. Tais reflexões são oriundas do meu confronto com a realidade paulistana e que me fazem constatar uma provável indisponibilidade da população em adotar uma conduta flanêrie.

De acordo com os estudos de Charles Baudelaire e Walter Benjamin realizados por Massagli (2008, p.57), o flaunêr

[...] é o leitor da cidade, bem como de seus habitantes, através de cujas faces tenta decifrar os sentidos da vida urbana. De fato, através de suas andanças, ele transforma a cidade em um espaço para ser lido, um objeto de investigação, uma floresta de signos a serem decodificados – em suma, um texto.

Ainda, em suas palavras, o “[...] flanêur aparece como a figura de um burguês que tem o tempo a sua disposição e que pode dar-se ao luxo de desperdiçá-lo, para horror da sociedade capitalista de sua época” (MASSAGLI, 2008, p.57). E isso traz à tona a questão do tempo para esta discussão, que de acordo com Wolff (2012), pode ser subdividido por alguns sociólogos em três tipos:

[...] o tempo obrigatório (aquele que dedicamos a atividades socialmente produtivas), o tempo imposto (o que passamos nos transportes, fazendo compras, cozinhando, comendo, nos lavando ou dormindo) e o tempo livre, que é o que resta quando retiramos os dois anteriores.

Assim, em uma cidade como São Paulo, caracterizada pela presença marcante do tempo obrigatório e do tempo imposto na vida dos indivíduos, a indisponibilidade para a realização de atividades aparentemente inúteis, tais quais a dos flaunêres, é a consequência mais previsível. Para muitos habitantes, não há quantidade de tempo chronos para vivenciar o tempo livre...

Contudo, ainda há o intervalo, este interstício que pode se configurar como tempo livre ou não, a depender dos posicionamentos éticos de quem o vivencia. Em waitscape, denominamos este intervalo de trânsito como  “tempo de espera” que é um tempo possível para o exercício da convivência ou quem sabe desta conduta flaunêrie. Ambas implicam em sair deste campo indiviual para vivenciar um campo social. Contudo, experimentando este exercício percebi um comportamento social precário entre as pessoas tanto no ponto de ônibus ou plataformas de trem e metrô, como também nas outras estrutura de organização da vida pública que promovem estes "lapsos" tempos potentes para o encontro com o outro ou consigo: filas do banco,chamadas telefônicas para os callcenters, no trânsito, no atendimento de hospitais, escolas e delegacias, etc.

Dentre os posicionamentos possíveis para nos relacionarmos com estes tempos de intervalo, temos, muito comumente, produzido sensações negativas frente à realidade, tais como angústia e ansiedade.  Afinal, a “espera” pode representar a sensação de improdutividade e, logo, a sensação de estar “perdendo tempo” se manifesta nos sujeitos e amplia-se a possibilidade de estresse e a consequente diminuição da qualidade de vida. Por sua vez, waitscape, apresenta-se como jogo para subverter esta imposição de "utilidade" ao tempo e produzir olhares e escutas para este cotidiano num primeiro momento, para, quem sabe, gerar outras relações políticas nestes tempos que podem vir a ser meetingscape...

REFLEXÕES SOBRE PAISAGEM SONORA

“Paisagem sonora” é um termo que surgiu a partir das experiências educativas do compositor e professor canadense Murray Schaffer na década de 1960, que compreendia o universo sonoro de uma maneira ampla, incluindo sons, silêncios, ruídos, timbres, melodias, amplitude, melodias e quaisquer outros elementos capazes de emitir som. Dentre as sonoridades possíveis podemos compreender tanto os sons naturais quanto os artificiais, sendo esta última a mais predominante no ambiente urbano e aquela que vem oferecendo uma estética sonora pautada pela predominância do ruído e oferecendo ao ouvinte uma nova possibilidade de escuta. É, portanto, esta estética que buscaremos apresentar adiante.

Com a produção em larga escala das máquinas dos mais diversos tipos e sua inserção no cotidiano das pessoas, a quantidade de elementos sonoros com os quais o ser humano passou a se relacionar diretamente (liquidificador, aspirador de pó, computador, o ventilador, o ar condicionado) também provocou uma série de alterações na sua escuta. Consequentemente, as possibilidades sonoras apontadas por elas ofereciam um campo ainda a ser explorado. Surgem inúmeros ruídos desconhecidos e a partir de investigações no campo da paisagem sonora, estes ganharam espaço no universo da linguagem musical, tornando-se uma nova possibilidade timbrística.

Com relação a este universo de escuta, Schafer (1977) apud José et Sergl (2006) apresenta a existência de dois tipos de escuta, a hi-fi e a lo-fi, sendo a primeira aquela na qual podemos extrair maior precisão sonora uma vez que a presença de ruídos é reduzida e a escuta adquire um estado ativo, também denominada “perspectívica” ou “focada”. No caso, da escuta lo-fi, torna-se inviável a existência de uma escuta “focada” e o que passa a existir é uma escuta “periférica”, uma vez que os sons que chegam aos ouvidos são provenientes de todas as direções. Waitscape vai se constituir por esta segunda escuta (lo-fi/ periférica).

Iges (s/a) cita em seu artigo três tendências para a paisagem sonora, sendo a primeira decorrente da linhagem originária dos estudos de Murray Schafer que comporta predominantemente os sons ambientes; já a segunda, traz uma perspectiva mais livre e pode incorporar elementos de poesia, documentário ou reportagem; por fim, a terceira tendência, possui uma exploração mais demarcada de sintetizadores e a alteração da sonoridade original. De todas as formas, a paisagem sonora pertence a um campo da arte eletrônica, que não poderia existir sem a tecnologia eletrônica de gravação, telecomunicações e manipulação de informações.

Detre os nomes nomes que podemos destacar para esta linguagem temos: Gilles Artaud, Jocelyn Robert, M. Gauthier, C. Bourque, Robert Racine, Claude Schryer, René Lussier and Yves Daoust, Luís Carles and I. López Barrio, Bill Fontana, Andrea Sodomka, Martin Breindl e Norbert, Pierrry Henry, Gerhard Rühm, Kaye Mortley, Francisco López...

Aos curiosos no tema, é importante demarcar a distinção entre paisagem sonora e música concreta, pois embora ambos possam lidar com o mesmo tipo de escuta, há uma diferença na forma de captação dos sons. Enquanto a paisagem sonora parte de uma coleta dos sons que se apresentam no ambiente ao acaso (chuva, trem, buzina), na música concreta é possível a construção artificial de um cenário sonoro.

REFERÊNCIAS

 

IGES, J. Soundscape: a historical approach, s/a

JOSÉ, C. L., SERGL, M. J. Paisagem Sonora. In: Anais do Intercom – XXIX Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, 2006

MASSAGLI, S. R. Homem da multidão e o flâneur no conto “O homem da multidão” de Edgar Allan Poe. Revista de Estudos Literários. Volume 12 (Jun. 2008) – 1-170. ISSN 1678-2054.

 

SANTOS, F.C. A escuta da cidade/ paisagem sonora: um exercício. In: Revista BALEIA NA REDE - Estudos em arte e sociedade, n. 10, vol. 1, 2013.

OLIVEIRA, A. L. G.  Paisagem Sonora como obra híbrida: espaço e tempo na produção imagética e sonora. In: Semeiosis: semiótica e transdisciplinaridade em revista. Maio, 2011.

WOLFF, F. Apologia grega à preguiça (p.29-49 ). In: Mutações: Elogio à preguiça. Organização. Adauto Novaes. São Paulo:Edições SescSP, 2012

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